O que comer em Chengdu: review sincero de um food tour na China

Toda vez que chegamos num país ou cidade nova, uma das primeiras experiências que procuramos é algo relacionado à culinária local. Afinal, provar as comidas locais é um dos métodos mais fáceis, e talvez o nosso preferido, de fazer uma imersão cultural. Às vezes nos aventuramos em aulas para aprender a cozinhar os pratos (com diferentes níveis de sucesso), ou mantemos no simples só buscando pratos locais nos restaurantes próximos. Mas buscar por comidas autênticas por meio de um food tour é de longe a nossa tática favorita.

Se você viaja bastante, sabe do que eu estou falando. Fazer um tour de comidas oferece várias vantagens para quem quer otimizar o roteiro: 

  • Oportunidade de provar diversos pratos de uma só vez, sendo uma forma super eficiente de ter uma visão geral da gastronomia da região. 
  • A chance de bater perna por diferentes partes da cidade, visto que a maioria desses roteiros leva a gente a restaurantes em bairros variados. 
  • Acesso a um guia local, que não só faz a curadoria para te livrar das comidas feitas especialmente pra turistas, mas também te ajuda a escolher pratos realmente autênticos. De quebra ainda dá pra pegar dicas, relacionadas ou não à culinária.

Por isso, assim que eu e o Lear pousamos na China, na cidade de Chengdu, uma das primeiras atividades que planejamos foi um tour de comidas.

Esse aqui é o nosso relato da experiência: o que comemos, bebemos, e se é algo que realmente vale a pena adicionar no seu roteiro (spoiler: sim, eu recomendo bastante, e no fim do post vou te ensinar o passo a passo pra reservar).

O início do tour e os famosos “Triciclos em Chamas”

A primeira grande aventura de um tour é sempre… encontrar o ponto de encontro de tour. O metrô de Chengdu funciona super bem, então seguimos as orientações do nosso guia para sairmos na estação Yushuang Road. Ao pisarmos na rua, ele nos identificou na hora (não era muito difícil: dois estrangeiros com cara de perdidos tentando se achar com o celular).

Nosso guia foi o George, um local nascido e criado em Chengdu. De cara ele já nos ofereceu bebidas: água, refrigerante ou cerveja local. Ao longo do tour pudemos beber à vontade entre essas opções. Decidimos começar pela cerveja. Na nossa experiência, as marcas mais comuns em Chengdu (e Chongqing, que visitamos depois) são super levinhas e fáceis de beber, com teor alcoólico baixo, variando entre 2% e 4%. E o bônus: ganhamos um porta-copos muito fofo com estampa de panda (tem imagem de pandas em absolutamente todos os lugares em Chengdu).

As bebidas eram liberadas durante o tour
Levamos o porta-copo de brinde

Encontramos as outras duas participantes e formamos nosso grupinho de quatro pessoas. O George explicou que nosso meio de transporte seria um clássico da cidade: os “Triciclos em Chamas”, conhecidos localmente como huǒ sānlún (火三轮). Ele brincou que as viagens poderiam ser “com emoção” (daí o apelido de “em chamas”), mas os trajetos foram super tranquilos, lembrando bastante a experiência de andar de tuk-tuk na Tailândia.

Nosso meio de transporte

Primeira parada: Panquecas Kunkun (鲲鲲蛋烘糕) 

Nossa primeira parada foi numa barraquinha de rua. O local se chama 鲲鲲蛋烘糕, que em uma tradução livre seria “Bolos de Ovo (ou Panquecas) Kunkun”. O George nos contou que essas panquecas são clássicos em Chengdu, do tipo que ele costumava comer logo após sair da escola quando era criança. Elas também são conhecidas como Tacos de Chengdu por conta do formato.

O primeiro prato foi a 麻辣牛肉, uma panqueca de carne moída picante. Como eu não como carne, passei a vez, mas o consenso da mesa foi de que estava incrível. 

Nota do Editor (Lear): era, de fato, muito bom. A carne tem um leve tempero doce que combina perfeitamente com a pimenta, que não é muito intensa e casa bem com o gosto mais neutro da massa. 

Dá pra comer 10 dessas fácil fácil

Provamos também a 芝麻白糖, panqueca recheada com pasta de amendoim, gergelim e açúcar, sendo esse o sabor mais clássico (e o meu favorito). Bem equilibrada e apesar de ser doce, não era enjoativa. A massa é tão leve que você facilmente come várias sem perceber. 

A Estrela da Rodada: batatas salteadas em cubos (炒土豆丝), que são uma especialidade de Chengdu. Pedimos uma versão picante e outra não. Ambas estavam excelentes: crocantes por fora e macias por dentro, como toda boa batata deve ser. Um lanche 10/10.

As batatas roubaram o show

Essa combinação de panquecas e batatas foi uma das que repetimos depois do tour, é realmente uma refeição saborosa.

Segunda parada: Wontons pra jogar Mahjong

A segunda rodada aconteceu no 胖千千八二干海椒抄手 (nem vou me arriscar a tentar traduzir!), uma das redes de restaurantes mais famosas de Chengdu especializada em wontons, que são aqueles pequenos bolinhos recheados estilo dumpling. 

A história do lugar é bem interessante: o espaço onde fica a matriz do restaurante era antigamente um salão de Mahjong, um jogo tradicional chinês. A dona começou a fazer os wontons apenas para os clientes que estavam jogando, mas a comida era tão boa que as pessoas passaram a frequentar o salão só para comer, ao invés de jogar. Hoje, a marca tem diversas filiais espalhadas pela China e até fora do país. 

Quem quer jogar Mahjong?

Nós pedimos 3 diferentes variações de wontons (todos recheados com carne de porco):

  • 干海椒抄手 (pimenta seca)
  • 饺子味抄手 (óleo de pimenta vermelha – o mais clássico)
  • 松茸炖鸡 (sopa de frango com cogumelo matzutake)

Pra não me deixar de fora por ser vegetariana, o guia pediu uma porção apenas com a massa e os molhos. Mesmo sem o recheio, era muito gostoso. E um detalhe: apesar de dois sabores serem apimentados, a picância era bem controlada e tranquila para comer. Fiquei até surpresa porque eu esperava sofrer bem mais com a pimenta na China, mas o George contou pra gente que Chengdu é uma das cidades com a pimenta mais leve por aqui.

Nota do Editor: eu provei as versões com e sem recheio. Obviamente, se você come carne de porco, a opção recheada é melhor. Mas a verdadeira estrela do prato são os molhos, e o clássico de óleo de pimenta vermelha foi de longe o meu favorito.

Terceira parada: Noodles que fazem a boca formigar

A próxima parada foi no 小名堂担担甜水面 (macarrão de água doce Xiaomingtang Dan Dan). O macarrão “Dan Dan” é um ícone da região.Ele leva esse nome por causa dos suportes de bambu (chamados Dan Dan) que os antigos vendedores usavam nos ombros para carregar as massas e os molhos. 

Esse prato é servido “seco”, o que significa que é um macarrão, mas ainda assim vem com molho. Aqui o nível de pimenta deu uma subida, mas nada desesperador. O mais engraçado é que essa pimenta local tem um efeito que deixa os lábios formigando (lembra o efeito do jambu), que é uma experiência bem interessante.

Comedora profissional de macarrão

Confesso que não sou a maior comedora de macarrão do mundo, mas esse foi, sem dúvidas, o meu prato favorito de todo o tour. A massa é levíssima. Minha versão veio só com o molho e a massa, mas a versão original leva carne moída. 

Também rolou o macarrão de “água doce”, cortado à mão, mais grosso, com uma textura mais firme, coberto por um molho de amendoim (pelo visto eles amam amendoim por aqui) e molho de soja doce e picante.

Nota do Editor: esse macarrão de água doce foi o meu favorito, o melhor prato do tour pra mim.

Quem diria que amendoim no macarrão super combina?

Essa foi outra refeição que repetimos outro dia depois do tour. Uma nota importante é que o macarrão perde um pouquinho da textura quando é de delivery, então minha recomendação, para ter a experiência autêntica, é comer no restaurante.

A essa altura, nós já estávamos estourando de tanto comer, mas para o nosso misto de desespero e animação, o George avisou que ainda tínhamos um restaurente pela frente. 

Quarta parada: Um verdadeiro banquete chinês

Fomos ao 集源江湖菜 (Jiyuan Jianghu), um restaurante que fica escondido no segundo andar de um prédio numa rua comercial. Mesmo faltando menos de uma hora para fechar, o salão estava lotado. De acordo com o nosso guia é um dos lugares mais populares da vizinhança, e enche inclusive durante a semana.

Apesar da barriga cheia, essa foi amaior refeição da noite. Para vocês terem ideia da quantidade, o pedido incluiu: 

  • 水煮肉片 (fatias de porco cozido)
  • 麻婆豆腐 (mapo tofu, um dos pratos mais típicos da região)
  • 椒盐平菇 (cogumelos empanados)
  • 黄金玉米 (milho dourado)
  • 木耳炒莴笋 (refogado de cogumelos enoki com raiz de alface)

Na China, a dinâmica em mesas fartas assim é você ter o seu potinho individual com arroz, ir pegando as comidas dispostas no centro da mesa e misturando tudo no seu prato. Tudo estava muito gostoso, mas os cogumelos empanados (super sequinhos) foram meus favoritos.. 

Nota do Editor: o porco cozido não parecia nada demais quando chegou, mas por conta do tempero e molho era muito gostoso. Também combinava absurdamente bem com os cogumelos empanados. 

Para acompanhar, fomos de cerveja local e provamos o Baijiu, destilado muito popular China. A marca que bebemos era a Waizui (que significa “Boca Torta”, servida numa garrafa com formato curvo bem diferentão). O bichinho tem impressionantes 52% de teor alcoólico, com um sabor super forte que me lembrou muito o Ouzo, aquele licor grego. Mas como boa mineira eu dei meu nome e bebi até terminar a garrafa (beba com moderação).

A garrafinha até engana

Uma atitude que me ganhou: tinha bastante comida e era final de tour, então sobrou muita coisa na mesa. O guia pediu para embalar tudo e entregou as marmitas para os motoristas dos nossos triciclos. Zero desperdício.

Última parada: Um brinde de despedida 

Fechamos a noite na Chunxi Road, uma das principais avenidas de Chengdu, num bar escondido atrás de uns prédios comerciais. É exatamente por conta desses achados secretos que amo fazer tours locais. Eu nunca teria me embrenhado por trás desses prédios procurando  um bar.

O nome é 国营七八公社, que traduz para algo como “Comuna Estatal 78”. E o nome faz todo sentido: o lugar tem uma decoração retrô inspirada na década de 70 e 80. O ano de 1978, especificamente, marca o início da transição da China do sistema mais rígido das Comunas para uma economia mais aberta. Um pouquinho de história antes do drink.

Lá nós brindamos com 红梅酒, um vinho de ameixa vermelha produzido pela própria casa que ele salpicou com cascas de tangerinas secas. A bebida tem entre 10% e 15% de álcool, mas como é muito doce, o gosto da bebida alcoólica some. Se achar o gosto muito forte, a dica é pedir gelo para misturar e diluir um pouco. 

Além do drink, na mesa do bar havia vários jogos e um deles era aquele pega-vareta que a gente ganhava na festa junina, sabe? E eu amei descobrir que todo mundo na mesa já tinha jogado, mesmo sendo uma americana, uma italiana e um chinês. No fim a gente é mais parecido do que imaginamos. 

Esse foi o fechamento para um excelente tour por Chengdu. Nós ficamos aqui um tempo saboreando nosso vinho e conversando com nosso guia e as demais participantes do tour. E é aqui que entra mais uma vantagem desses passeios: é normalmente onde surgem as melhores amizades e rolês aleatórios. 

Durante a conversa, o George comentou que faria, no final de semana seguinte, um circuito de bike de 100km dando a volta em Chengdu. E foi quando surgiu a pergunta na mesa: “should we do it?” que em bom português seria algo como “bora? bora!” Mas esse rolê (e se eu consegui ou não fechar os 100km) eu te conto em outro post…

Conclusão: Vale a pena fazer um food tour na China? 

Se não ficou claro até agora: SIM, vale demais! Aliás, é o tipo de experiência que eu recomendo fazer em qualquer cidade ou país novo que você visite e tenha essa opção.

Não teve absolutamente nenhum prato nesse roteiro de Chengdu que eu ou o Lear não gostamos. Foram restaurantes frequentados por locais, servindo comidas de fato autênticas, que além de serem muito gostosas, nos ensinaram um pouco mais sobre a cultura e a história chinesa. Existem inúmeras formas de se imergir numa nova cultura, e a culinária é facilmente uma das mais fortes.

O passeio está aprovado e leva o estimadíssimo Selo Rolês Aleatórios de Qualidade

Como reservar o seu Tour Gastronômico (com desconto!) 

Nós sempre fechamos nossos roteiros e passeios pela plataforma Get Your Guide, que é o nosso braço direito nas viagens. É prático e super confiável. 

Para quem quiser fazer exatamente o mesmo roteiro que a gente, é só clicar nesse link que te leva diretamente pra experiência: Food Tour Chengdu.

  • Idioma: 100% em inglês.
  • Restrições: eles adaptam os pratos sem problema nenhum para vegetarianos (como fizeram para mim), e também se adequam para outras restrições, só avisar com antecedência.
  • Quanto custa? Na data que fomos, pagamos cerca de 134 euros para duas pessoas (aproximadamente R$ 770). Pode parecer um custo mais salgadinho, mas pelo guia excepcional, o transporte incluso e pela quantidade de comida e bebida que consumimos, vale bastante.

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Essa foi a nossa aventura gastronômica por Chengdu! Fique de olho que em breve posto mais detalhes das nossas aventuras aqui pela China. 

Te vejo na estrada!

Sami.