Viagens

Pode fazer cocô? – Dicas para andar de motorhome e não passar vergonha

Não era uma segunda-feira usual pra mim. Ao invés de acordar e pular da cama como de costume, me estiquei por cada centímetro da cama gigante do hotel abraçando a maior quantidade de travesseiros que eu conseguia.

Enrolei o máximo que pude para me levantar. Sabia que nos próximos dias dormir com as pernas esticadas seria um luxo distante, e um travesseiro sozinho já ocuparia mais espaço do que deveria.

Afinal, o dia de alugar o motorhome havia chegado. E não me entenda mal. Apesar de me delongar aproveitando os luxos que um quarto de hotel pode oferecer, eu estava extremamente ansiosa para descobrir como seria viver em uma casinha móvel por alguns dias.

Fizemos check out no hotel e guardamos nossas malas no depósito que eles ofereciam, pois teríamos um longo caminho até a locadora.

Já imaginávamos que seria um dia de aventura. A locadora não ficava na mesma cidade que estávamos, Hamburgo, mas em um município próximo. Seria necessário pegar metrô, ônibus e andar por algum tempo para chegar até lá. Isso sem levar em conta que estávamos em uma cidade totalmente desconhecida, e grande parte das informações e sinalizações eram em alemão. E nenhum de nós tinha internet no celular.

Mas por incrível que pareça, essa foi a parte fácil do dia.

Chegamos na locadora e o processo de locação foi relativamente simples. Difícil mesmo foi entender todas as explicações que o técnico nos deu sobre o veículo falando super rápido e com um sotaque pesadíssimo.

Enquanto ele falava eu sorria e acenava fortemente e procurava o olhar do pessoal que estava comigo tentando descobrir se apenas eu estava tão perdida. Eles pareciam estar entendendo, então fiquei tranquila.

#notadoeditornamorado: alerta de spoiler! Ninguém estava entendendo nada.

Assim que pegamos as chaves fizemos o que qualquer ser humano normal naturalmente faria: fomos pro mercado mais próximo encher o carro de comida e bebida!

Chegando no mercado, memorei pra entender que pra soltar o carrinho você precisa encaixar um euro nos espaço em cima do carrinho e que depois, quando você devolve, ele libera a moeda. Fiquei resistente, afinal não queria arriscar perder cinco reais, mas confiei na tecnologia de primeiro mundo.

#notadoeditornamorado: é literalmente uma tranca que você empurra com uma moeda. Tecnologia de ponta.

Ficamos a tarde inteira no mercado, pois estávamos deslumbrados com a quantidade de coisas diferentes e, principalmente, baratas disponíveis pelos corredores.

Confesso que me separei do grupo, me amarrei na estante que oferecia Milka a 0,75 cents de euro, e disse que não ia mais embora. Eles nem me deram bola porque estavam mais preocupados em encher o carrinho com Paulaner por 1 euro.

Porque eu to na seção de gemuse quando tem Milka a 0,75?

Não foi fácil comprar alguns itens simples como detergente, pois não havia nada em inglês dentro do mercado e todos os produtos de limpeza pareciam iguais. Escolhi pelo cheiro, peguei aquele que mais parecia com o Ipê que eu uso em casa e torci pra que não fosse algo como água sanitária.

Já era fim de tarde quando saímos do mercado. Nosso plano era dirigir até o camping, que ficava próximo a cidade, e ir de metrô até o hotel buscar as malas. Assim não precisaríamos andar com o motor home nas ruas apertadas do centro da cidade.

Chegamos no camping e algo nos chamou bastante atenção: todas as luzinhas da casinha que deveria ser a recepção estavam apagadas e a porta estava fechada, dando a impressão de estar fechada. Achamos estranho, mas encostamos o motorhome e descemos pra ir até lá verificar.

Não era impressão, a recepção estava fechada.

Eu nunca ouvi tanto silêncio na minha vida, chego até a achar que por 2 segundos o coração de todo mundo parou de bater.

Mas tudo bem, a gente havia feito uma reserva, de alguma forma tinha uma vaga pra gente ali.

Olhando mais de perto vi que tinha um papel mal impresso grudado no vidro da janela, estava tudo escrito em alemão mas dava pra entender que falava algo sobre “6pm”. Eram 18:09, eles haviam acabado de fechar!

Sai correndo num impulso doido e fui perguntando pras pessoas da rua se elas eram donas do camping. Algumas delas nem falavam inglês e pra falar a verdade eu nem sei se eu tava falando inglês também (grandes chances que eu não estivesse falando nenhuma língua real).

Não tive sucesso, voltei pra recepção.

Meu namorado tinha visto que no final do papel haviam nomes e números de vagas, mas nenhum dos nossos nomes estava lá…

Foi ai que ele se lembrou:

“Eles solicitaram um depósito…”

O camping havia confirmado a reserva, mas em seguida solicitou o depósito de uma parte do valor. Porém não era possível fazer o depósito do Brasil, então ele mandou um e-mail explicando e ficou por isso mesmo.

Nessa hora eu tenho certeza, o coração de todo mundo parou!

Era oficial, estávamos “desabrigados”.

E o pior é que ninguém tinha internet no celular para procurar outro camping próximo.

A sorte é que havíamos baixado os mapas da região no aplicativo do Google Maps anteriormente. Assim dava pra procurar os lugares no mapa que tinham camping no nome.

Meu cunhado encontrou três opções, duas relativamente próximas, a outra fora da cidade. Decidimos ir em um dos mais próximo, até porque ainda teríamos que buscar as malas depois.

Ao chegar lá encontramos o que parecia ser um camping informal, uma área meio abandonada com vários motorhomes, não tão inteiros, estacionados em uns cantos meio duvidosos. Não era um lugar muito amigável.

Resolvemos tentar a segunda opção próxima.

Chegando lá descobrimos que na verdade era uma loja de materiais de camping. Problemas de não se ter internet para saber mais sobre o local…

O cemitério de motorhomes já estava começando a parecer uma boa opção.

Mas decidimos que era melhor tentar o camping fora da cidade. Na pior das hipóteses ficaríamos sem as malas, sem camping, fora da cidade, vivendo como se estivéssemos em um episódio de largados e pelados. Só que com muita cerveja e Milka.

Dirigimos até a última opção. No motorhome o silencio reinava. Todo aquele ânimo de viajar pela Alemanha em um carro-casa tinha ficado junto com a vaga que deveria ser nossa no primeiro camping.

Estacionamos um pouco antes da entrada e descemos. Na recepção havia uma plaquinha de que os serviços se encerravam as 18, mas por algum motivo a porta estava aberta. Entramos.

Descobrimos que eles estavam abertos extraordinariamente. Chame de Deus, de sorte, de destino, do que quiser, eu só queria desesperadamente usar o banheiro!

Ai você me pergunta:

“Mas Samira, porque você não usou o banheiro do motorhome?”

Pois bem, uma das coisas que eu entendi do senhor técnico era que todos os detritos vão pra uma caixinha que fica alocada na parte de trás do veículo e que ela enche bem rapidinho quando tem 4 pessoas usando. Então provavelmente todos os dias alguém teria que limpar.

Depois de refletir algum tempo sobre isso nós percebemos que ninguém queria limpar o cocô do outro, daí combinamos que nosso banheiro era “pipi only”.

Porque além de xixi ser mais tranquilo, dentro da caixinha tem um químico que deixa ele azul e sem cheiro. Então é super tranquilo de limpar, se você for um pouco esperto.

Por isso, se alguém quisesse fazer outras coisas, faria no banheiro do camping ou em qualquer outro lugar. Preferencialmente um lugar que talvez só a mãe natureza tivesse que limpar depois…

Enfim, conseguimos a última vaga do camping e eu consegui fazer cocô 🙌

Depois disso nos preparamos para nossa próxima aventura: descobrir como chegar no hotel para pegar nossas malas. O camping ficava bem afastado da cidade e teríamos que passar por uns matos pra achar a primeira parada de ônibus.

Só levou algumas horas e alguns vários transportes para que pudéssemos chegar no hotel. Chegamos tão tarde que eu tinha certeza que nossos itens estariam sendo leiloados aos hóspedes.

Mas estava tudo lá. Nossa única surpresa foi quando a moça do hotel solicitou nossas etiquetas para retirada das bagagens e nessa hora minha concunhada não achava a dela.

Logo começou a tocar na minha cabeça:

“Hello darkness my old friend”

Mas graças a Deus a moça percebeu nossos olhares desesperados e entregou a bagagem mesmo assim.

Voltamos pro camping para descansar.

Mais um dia se iniciava e dessa vez vez não era num colchão enorme de hotel, mas sim no sofá convertido em cama do motor home que mal nos cabia. Foi uma experiência diferente, mas definitivamente o ponto alto foi poder ver as estrelas pela janela do teto.

A cama boa ficava em cima dos bancos do motorista e passageiro, era grande, tinha um “teto-solar” próprio e cortininha, mas decidimos que revezaríamos, para que todos pudessem ter algumas noites com a perna 100% esticada.

Fomos atrás de um chip de celular (para acabar com os perrengues) e seguimos para o próximo camping. Dessa vez seria no Wacken (se você não sabe o que diabos é isso clica aqui).

Chegando lá, uma grande descoberta: haviam dois tipos de camping, o pago e o grátis. O pago te dava direito a todos os recursos que um motor home precisa para funcionar 100% (água para encher o tanque e energia para re-carregar a bateria) e o grátis te dava direito a um espacinho na grama 👍

Porém era necessário ter feito uma reserva prévia para ficar no camping pago e nenhum de nós sabia disso. Não haviam mais vagas!

Isso significava que pelos próximos 4 dias teríamos um estoque limitado de água e energia!

Adeus banho. Adeus celular. Adeus escovar os dentes.

Basicamente estávamos voltando, aos poucos, pro plano do largados e pelados. E agora nem tinha mais tanta cerveja e Milka.

Decidimos então que viveríamos os próximos dias como se estivéssemos na cidade de São Paulo, economizando água e luz para evitar secas e apagões.

O plano B seria pedir emprestado um gerador do vizinho, que parecia ter alugado um exclusivamente para alimentar seu sistema de karaokê (que mais se assemelhava a um alarme, considerando que era ligado às 08 da manhã).

Por 4 dias vivemos ligando apenas uma luz quando escurecia, tomando banho de gato (só lavando as partes), carregando celulares fora do carro (em um depósito pequeno que alugamos no próprio Wacken), reutilizando a panela do macarrão pra fritar hambúrguer, fazer salmão e assar pão de alho (afinal lavar panela suja é pros fracos), usando prato de papel e talher de madeira pra comer e xícara de plástico pra beber cerveja.

Um jantar de classe!

Sobrevivemos.

Ao final do festival, era hora de voltar e precisávamos garantir que o motor home estivesse nos trinques para devolve-lo.

Limpar toda a sujeira de 4 dias foi fácil… O que começou a me preocupar foi quando eu percebi que eu não era a única que estava apenas sorrindo e acenando enquanto o senhor técnico explicava sobre o motorhome em sua língua própria.

Ninguém sabia como abastecer o carro!

A única informação conhecida era que precisávamos encher pelo menos 1/4 do tanque com Diesel.

Quantos litros significava 1/4 do tanque?

Essa é uma pergunta que até hoje eu não sei responder…

Chegando no posto haviam 6 corredores com bomba, 3 do lado direito da loja de conveniência e 3 do lado esquerdo e precisávamos escolher pra qual lado seguiríamos.

De um lado havia uma bomba escrito “truck diesel” e do outro vários nomes que jamais me lembrarei mas que não tinham nada a ver com diesel.

Parecia fazer sentido ir em direção a bomba que tinha diesel no nome, não fosse a parte do “truck” e o fato de que tinha um motorhome parecido com o nosso na fila dos nomes estranhos.

Precisávamos decidir, uma fila de carros se formava atrás de nós.

Entramos na fila mais próxima com os nomes estranhos, estava bem cheio e por isso ficamos nela por um bom tempo. Na fila percebemos que o posto era “self-service” o que complicava ainda mais.

Quando chegou nossa vez de abastecer, meu cunhado desceu do carro e trouxe a boa notícia

“É aqui mesmo! Tem diesel!”

Parecia tudo certo então, até que ele andou um pouco e chegou a seguinte conclusão:

“A entrada do tanque é do outro lado do carro e a bomba não chega”

Não era possível, todo esse tempo a toa na fila… Mas era perdoável, afinal a gente nunca tinha abastecido um carro desses!

Demos a volta no posto e entramos em outra fila, de forma que a bomba ficasse do lado do tanque, esta fila era maior.

Esperamos.

Quando chegou nossa vez, novamente meu cunhado desceu, e voltou depois de um tempo com uma expressão confusa no rosto:

“Também não é desse lado”

Nisso já havia se passado algum tempo e as pessoas atrás de nós pareciam agitadas.

Descemos todos do carro e começamos a procurar, afinal de contas onde ficava essa bomba? O motorhome tem uma cacetada de portas, buracos, alavancas. Mexemos em todas, mas nenhuma delas dava acesso ao tanque.

A situação começou a ficar desesperadora.

Ninguém no posto falava inglês.

Os motoristas alemães, muito educados para buzinar, vieram pedir pessoalmente pra gente sair.

Quando não parecia mais ter solução, quando já estávamos chegando à conclusão de que não seria possível abastecer o carro, meu cunhado olhou o primeiro buraco apontado pelo senhor técnico no dia da locação, aquele bem simplório, que não chamava alguma atenção. Era lá.

Mais uma vez, sobrevivemos.

E eu ainda consegui comprar um chocolate na conveniência.

No final de todo esse rolê, percebi que pra andar de motorhome, só precisa de um pouquinho de paciência, luvas plásticas, vontade de viver uns rolês aleatórios e uma palylist boa que não deixa ninguém desanimar mesmo quando você tá passando perrengue.

Espero que você tenha gostado das dicas e que elas te ajudem a não passar os mesmos perrengues que eu. Se tem alguma coisa que eu não contei ou você ainda quer saber mais sobre essa experiência, me manda um direct no instagram . Vou adorar responder ❤.

Hi, I’m Samira

One Comment

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *