Descobrindo o maior festival de metal do mundo
Essa é a Parte 1 de uma série de duas partes sobre o Wacken.
Eram antes das 7h da manhã de um dia normal de trabalho quando fui acordada por um ser humano especialmente animado, o senhor meu namorado, dizendo que a venda dos ingressos do Wacken estava aberta e que ele mal podia acreditar!
A primeira coisa que eu pensei foi: “o que diabos é Wacken???”
Acredito que esse pensamento ficou bem nítido na minha expressão facial. Ele logo começou a me explicar que Wacken era o maior festival de metal do mundo, que rolava em uma cidadezinha no norte da Alemanha, que ele sempre sonhou em ir e por isso iria comprar ingressos pra gente na mesma hora, pois eles acabavam em menos de um dia.
Eu fiquei alguns segundos olhando pra ele com o melhor sorriso, não tão natural, que eu poderia dar às 06h30 da manhã e na minha cabeça só passava: “a não ser que esse festival seja pra fazer miçanga de metal eu não sei o que que eu vou fazer lá, porque o rock mais pesado que eu ouço é a trilha sonora do filme escola de rock”. Mas eu não podia falar isso porque o ser humano tinha acabado de me falar que era o sonho dele.
Convenci ele a esperar até o final do dia pra decidirmos, pois teríamos tempo de pensar direitinho em como faríamos essa viagem. Até porque, pra ir pra Alemanha, não é só chegar na ‘rodô’ e pedir uma passagem no próximo ônibus né? Além disso eu queria ganhar tempo pra entender melhor o que era esse tal de Wacken.
Pela tarde comecei minha pesquisa e essa foi a primeira imagem que apareceu ao lado da descrição do Wikipedia:
Definitivamente, não é pra fazer miçanga de metal.
Imagina eu, um metro e cinquenta e nove, andando por essa multidão de alemães metaleiros e sem querer canto uma música da Anitta…
Não me parecia uma boa ideia.
Pesquisando mais um pouco vi que os ingressos já haviam se esgotado. Boa parte de mim ficou triste pois era um sonho do mozão. Mas confesso que teve uma partezinha que ficou um tiquinho aliviada.
Ao final do dia quando entramos no carro pra ir embora pra casa vi que ele não estava mais tão animado. Fiquei pensando em como tocar no assunto, até que tomei coragem:
“Acabaram os ingressos né?”, eu perguntei.
“Acabaram”, ele respondeu, não tão triste quanto eu esperava.
“Fiquei triste, sei que você queria muito”, eu disse, levemente aliviada.
“Queria… por isso que eu comprei nossos dois antes de acabar”, ele respondeu, plenamente.
Eita…
Era isso. Eu ia pra Alemanha, pro maior festival de metal do mundo!
Preparando o rolê
Alguns meses depois começamos os preparativos para a viageme foi aí que eu fiquei sabendo um pouquinho mais sobre o festival.
O Wacken Open Air, WOA para os íntimos, é realizado todo ano, há 30 anos, em um município no norte da Alemanha chamado, advinha? Wacken. O vilarejo tem apenas 2.000 habitantes, mas durante o festival recebe cerca de 100.000 pessoas.
Sim, o festival é 50 vezes maior que o próprio município. Mas tudo acontece em campos gigantes que ficam ao redor da cidade propriamente dita.

Isso é o festival, não a cidade.
Descobri que por conta do município ser muito pequeno não existem muitas opções de acomodações “normais” como hotéis e Airbnb. As poucas opções desse tipo esgotam até mesmo antes da venda dos ingressos. O festival monta um hotel contêiner, mas que não tem tantas vagas e também esgota muito rápido. O jeito que sobra, e o que a maior parte das pessoas usa, é acampar. E tem muitas opções pra acampar:
Você pode ir no seu próprio carro, em barraca, levar só um saco de dormir e ficar numa tenda aberta, alugar um motor home e por aí vai.
Decidimos alugar um motor home. Iríamos em 4: eu, mozão, meu cunhado e a namorada dele.
Chegando no rolê
Mais alguns bons meses depois, lá estava eu dentro de um motor home pelas estradas da Alemanha a caminho do Wacken Open Air.
A viagem em si já estava sendo bem interessante. As pessoas marcam os carros pra mostrar que estão indo pro festival e fazem isso das mais diferentes formas, desde colocar as letras do festival com durex no para-brisa traseiro até plotar uma van preta inteira com logos de todos os 30 anos de festival.
Assistir os carros passando pela janelinha do motor home virou passatempo, cada hora passava um mais diferentão que o outro. E cada um que passava aumentava um pouquinho o friozinho na barriga.
Confesso que apesar do nervosismo de não saber muito bem o que esperar já comecei a me animar. O meu lado BR queria buzinar pra todo carro que passava com o WOA inscrito no para-brisa traseiro, mas me contive pois na Alemanha eles levam o trânsito muito a sério.

Você vai ver um desses a cada 5 segundos na estrada pra Wacken.
#DicaAleatória: se você estiver em um congestionamento em uma rua/estrada alemã precisa ir dirigindo bem no cantinho da sua faixa, para deixar o meio livre caso hajam emergências ou carros com sirene ativa precisem passar. Isso é conhecido como rescue lane, e eles levam isso bem a sério.
Chegamos no festival e de cara já comecei a quebrar o primeiro tabu da minha cabeça “lá só vai ter metaleiro doidão raiz muito louco com barba gigante e bandana na cabeça, eu nunca vou me encaixar”. SÓ QUE NÃO. Tinha gente de todo tipo, todo tipo mesmo!
Tinha família completa com criança pequena, senhor de idade andando com bengala, gente fantasiada de tudo que você imaginar (unicórnio, pikachu, padre, jesus cristo, tubarão…), gente de todos os lugares do mundo, todos falando a mesma língua: Wacken!
E por língua eu quero dizer ‘uma palavra só’, porque quando alguém grita “WACKEN” todo mundo responde “WACKEN”.
Falo isso com propriedade pois eu testei algumas vezes em várias ocasiões diferentes. Incluindo no banheiro. Quando só uma pessoa respondeu… mas ainda assim reforça meu argumento.
Apesar de eu ter acreditado fortemente por todos aqueles meses que eu não me encaixaria ali, eu estava me sentindo 100% em casa! Estava em um lugar onde ninguém te julga e todos querem a mesma coisa: se divertir. E bater cabeça. Bater muita cabeça.
O rolê
Desde o momento que eu cheguei eu não parei de me impressionar. Cada hora com uma coisa nova. Nada do que eu pesquisei anteriormente conseguiu fazer jus ao que realmente é o festival. Nenhuma imagem e nenhum vídeo consegue retratar o quanto o Wacken é f*$@!
O primeiro choque foi quando eu percebi que o festival na verdade é uma cidade temporária construída pra durar 5 dias (3 dias oficiais e 2 da zueira). E quando eu falo cidade não é exagero, não só por conta da quantidade de pessoas, mas por toda a estrutura.
#DicaAleatória: não deixe pra ir pro festival apenas no primeiro dia oficial. O camping abre 3 dias antes, e a maioria das pessoas já vai pra lá. Tem muita coisa pra fazer nos dias não oficiais, inclusive vários shows nos palcos secundários.
Existe um mercado gigante lá dentro, pra que você não sinta falta de nada enquanto estiver lá. E tem de tudo mesmo: comida congelada, comida fresca, bebidas, doces, coisas de acampamento, coisas que você nem sabia que precisava mas descobriu que precisa, muuuuuita cerveja e o melhor: pão quentinho e fresquinho (chega a manteiga derrete). E nada disso é mais caro só por estar dentro do festival, é preço normal de mercado.

Sim, eles montam um mercado gigante dentro do festival.
Outra coisa que impressiona bastante é a organização. Existe um aplicativo do festival para que você consiga acompanhar os horários de tudo bem certinho e até marcar o que vai querer fazer. E você pode confiar porque NADA atrasa lá, a não ser quando há previsão de chuva forte com raios. Por ser muito perigoso ficar em espaços abertos nessas chuvas, eles notificam todo mundo pelo app, avisam nos palcos e pausam a programação.
Além disso é tudo muito bem demarcado, tem lugar pra tudo na “cidade”. No app tem um mapinha para ver tudo que tem no festival e onde você está no momento. Isso facilita bastante, pois é bem fácil ficar perdido no meio de tantas áreas:
- Existem várias áreas de camping, cada uma tem uma placa com uma letra gigante pra facilitar a localização e fica próximo de uma área com banheiros, chuveiros e água. Cada carro e barraca tem seu lugar certinho de parar/armar, que é definido quando você chega.

- Existem as áreas com comida, onde você encontra de tudo um pouco: crepe, pizza, massa, pão de alho, falafel, comida paquistanesa, comida tradicional alemã, waffle… Se você comer uma coisa diferente em cada refeição, ainda assim não vai conseguir provar de tudo. E o melhor é que os preços são super justos. Eu comi o melhor falafel da minha vida por €5,00.
- Existem as áreas de comércio, que inacreditavelmente chegam a ser mais variadas que as de comida, e algumas ainda são temáticas, como a da área medieval por exemplo. É possível comprar roupas, sapatos, acessórios, cortar o cabelo, fazer uma massagem, colocar um piercing, fazer uma tattoo, comprar um chifre pra beber cerveja, ou ir no ferreiro para forjar sua espada de batalha (sério).
- Existem as áreas temáticas, uma medieval e outra meio “Mad Max”. Nelas todo o cenário é montado de acordo e existem muitos personagens ali pra fazer sua experiência mais real.

Expectativa X Realidade
Existem vários outros lugarzinhos, como uma área de estátuas dos maiores rockstars da história, uma área de jogos, uma área sobre uso de energia renovável pro festival, etc. Não tem como descrever todas, só indo lá pra ver. Mas o mais legal é que em todos esses lugares tudo era muito bem cuidado e limpo, principalmente os banheiros.
Com exceção dos banheiros químicos que ficam na área dos shows, que são tensos em qualquer lugar porque não tem pra onde o cocô da pessoa intolerante a lactose que não aguentou esperar chegar no motor home ir. Os banheiros e chuveiros dos campings são limpos constantemente, por isso é super tranquilo de usar.
Inclusive, só tomei banho no motor home um dia. Nos outros todos tomei no chuveiro do camping que tinha uma p*&@ ducha gostosa e quentinha.
#DicaAleatória: se você for muito pequeno pode não ser uma boa tomar banho no banheiro do camping pois o botão que liga o chuveiro fica na ducha e é bem alto. Além disso você tem que ficar apertando porque a água só sai por uns 20 segundos, pode ser que você tenha que ficar pulando caia e bata a cabeça…
#DicaAleatória: não entre na área dos chuveiro só pra ver como é, pois não há cortinas nem portas nos chuveiros, então assim que você entra vê todo mundo pelado e caso você tenha entrado só pra dar uma checada vai ficar parecendo que você é manja-r*la.
Me impressionou também a quantidade de coisas que haviam pra fazer dentro do festival. Era de explodir o cérebro, dava vontade de ter 30 dias ali pra aproveitar tudo, vou listar aqui algumas das que eu mais gostei:
- Motodrom (minha atração preferida): do lado do mercado havia um ‘motódromo’ para apresentações de moto. Era algo parecido com um globo do morte só que ao invés de um globo os pilotos andavam em uma parede chegando bem pertinho da plateia, que assiste tudo de cima. Além disso, os caras são tudo ‘amostrado’ (como diria mozão) e fazem um monte de gracinha pra galera.
- Metal Yoga: Toda manhã as 11 em um dos palcos menorzinhos rolava o metal yoga. Uma professora de yoga ficava em cima do palco ensinando movimentos pra galera que ficava embaixo. “ Mas Samira, isso é só Yoga normal”. NÃO! A tal da professora dava todas as instruções em gutural, como se estivesse gritando de forma rouca como vários cantores de metal fazem (pense Sepultura). E os movimentos são todos relacionados a coisas do metal, como por exemplo ‘quebrando a guitarra’, ‘botando fogo no palco’ e outras coisas do tipo. Confesso que mais divertido do que fazer foi assistir a galera super empolgada se jogando na terra com vontade e imitando os movimentos.

O jeito metaleiro de relaxar.
- Show de fogos (lança-chamas): Em um dos palcos do festival haviam várias estruturas de lança-chamas. Assim que começava a escurecer, o que acontecia por volta de umas 21:00 (verão europeu), eles iniciavam um show com os lança-chamas que acompanhava o show da banda que estava rolando. Parece simples, mas são lança chamas gigantes e fogo dançando no ritmo da música. É bem legal! E ainda, se você conseguir ficar pertinho de um deles, não vai passar frio, pode ter certeza.
Ai você me pergunta a mesma coisa que minha mãe me perguntou quando eu tava contando tudo isso pra ela:
Mas Samira, não é um festival de música, cadê a música??
Cadê a música?
Tem tanta coisa pra fazer no Wacken que se você não quiser assistir nenhum show, ainda assim você vai passar os 3 dias de um lado pro outro sem parar nenhum segundo.
Mas não, não foi isso que eu fiz.
Esse é o ponto que mais me surpreendeu em todo o festival, tem rock de todos os tipos tocando o tempo todo!
É impossível não ter alguma banda tocando em um dos 9 palcos que você não vai curtir, seja pela música ou pela performance (falo isso porque tem baterista tocando em cima da cabeça da plateia, tem banda que faz encenação de teatro, tem banda que desce do palco e marcha no meio do público…).
Então mesmo eu sendo fã de um rock ‘mais de boas’ eu fui em váaarriooooosss shows, me diverti muito, fingi que sabia várias músicas que eu nunca tinha ouvido na vida, entrei em ciranda do rock (era pra ser uma rodinha mas virou uma ciranda, também não entendi, mas curti) e descobri muitas bandas novas que já tão baixadas no meu Spotify.
E essa pra mim foi a melhor parte, descobrir de formas inesperadas bandas e até tipos de música que eu nem sabia que eu gostava (confesso que voltei 1% metaleira). A melhor coisa que tinha era estar andando pelo festival e quando você via tava no meio de um show irado ao lado de uma plateia onde ninguém conhecia a banda mas todo mundo pulava e curtia como se fosse fã há muitos anos!
#DicaAleatória: Se você estiver comendo uma onion rings enquanto anda pelo festival e estiver muito sol, encoste em uma grade para aproveitar a sombra do palco, pode ser que do nada comece o melhor show de todos e você assista bem de pertinho.
Além de estilos musicais e bandas descobri também um jeito “novo” de assistir show. Em qualquer dos palcos que fosse, e independente da banda, as pessoas não se espremiam pra assistir o show no intuito de ficar mais perto do palco. Mesmo bem lá na frente sempre havia espaço entre uma pessoa e outra, assim ficava melhor para pular, dançar e até sair do show se você quisesse.

Botas pra lama são itens essenciais pro Wacken.
Não só os shows, mas todo o festival era nessa vibe de curtir tranquilo. Sei que boa parte disso vêm da cultura alemã, mas ainda assim, em um lugar com quase cem mil pessoas vindas de todos os cantos do mundo, eu não vi uma briga, uma confusão, havia pouquíssimo lixo no chão, se alguém tivesse um problema logo apareciam 3 pessoas pra ajudar a resolver, e diversas vezes deixamos os sapatos, cadeira de praia, toalha molhada do lado de fora do motor home enquanto íamos aproveitar o dia e elas ainda estavam lá quando voltávamos.
No próximo post da série: Meu dia de estrela do Rock!
Olá, isso é um comentário.
Para começar a moderar, editar e excluir comentários, visite a tela de Comentários no painel.
Avatares de comentaristas vêm a partir do Gravatar.